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Meu personagem da semana: Nelson Rodrigues

Apaixonado por futebol e formado em Direito pela PUC-RJ, Eduardo Goldenberg veste a camisa rubronegra do Flamengo e dá um tom poético para seu artigo ao lembrar do grande mestre Nelson Rodrigues.

Eduardo Goldenberg
Crédito: Marcelo Vital
Eduardo Goldenberg

Eduardo Goldenberg

Em 1955, mais precisamente em 26 de novembro, quando o Brasil ainda não havia sido campeão do mundo e nem se recuperara do drama de 1950, no Maracanã, quando perdemos a final para o Uruguai, Nelson Rodrigues escreveu em sua crônica do dia, em Manchete Esportiva, o seguinte:
“E o Flamengo joga, hoje, com a mesma alma de 1911. Admite, é claro, as convenções disciplinares que o futebol moderno exige.”

Pois façam uma ideia: se em 55, 44 anos após 1911, Nelson fez menção às “convenções disciplinares que o futebol moderno exige”, o que dizer das convenções de hoje, das convenções que estarão vigendo em 2014, quando a Copa do Mundo será aqui, no Brasil? Cento e três anos depois do longínquo 1911, ou 59 anos depois da constatação de Nelson, o que esperar do futebol?

Faço a pergunta e volto ao Nelson. Ninguém, nunca, jamais, viu o futebol como o dramaturgo pernambucano. E aquele que lia Nelson Rodrigues, aquele que ainda hoje lê Nelson Rodrigues – e somente uma besta da cabeça aos sapatos deixa de fazê-lo! – sabe que o futebol, por mais que sejam inevitáveis as adaptações às convenções disciplinares, por mais que sejam inevitáveis as adaptações à profissionalização do esporte (que vem acompanhada de uma elitização ao mesmo tempo irreversível e lamentável), sobreviverá, e para sempre, na alma e no coração do povo, por mais que o povo, por força de todas essas transformações, venha sendo alijado, aos poucos e de forma perniciosa, de sua paixão-maior.

Dentre as transformações que vem sofrendo o futebol ao longo dos anos, uma me chama extrema atenção. A que pretende transformar o jogador num bom-moço. Digo isso, e explico.

Não quero, em absoluto, eis que sou um pacífico com alma de passarinho, fomentar a violência – que é o que pode parecer, em primeira análise, diante do que disse. Mas recorro ao Nelson, outra vez (e sempre, e sempre, e sempre), para que fique clara minha posição:
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”

Em março de 1958, às vésperas daquele que seria nosso primeiro título em Copas do Mundo, na Suécia, escreveu Nelson, na mesmíssima Manchete Esportiva:
“Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.”

Eis aí, então, o cerne da questão.

Nelson pregou, enquanto escreveu, e enquanto escreveu sobre o futebol e seu universo (jogadores, dirigentes, técnicos, torcedores, juízes, bandeirinhas etc.), a mais rigorosa falta de humildade, o que é rigorosamente impensável hoje em dia, quando vivemos sob a ditadura do politicamente correto, a forma mais sórdida de assassinarmos o bom-humor, a molecagem, o maneirismo, o drible, a ginga, a piada, talentos natos do brasileiro.

As Copas que vencemos depois do glorioso tri, já sob a égide do politicamente correto, não tiveram a carga de tensão e drama que são tão caras à alma do brasileiro. Vencemos, sim. Mas nos faltou a brasilidade, não sei se estou sendo claro.

Não vai, aqui, lamúria alguma nem tampouco ingratidão à geração que conquistou o quarto e o quinto título mundial. Mas vai, sim, uma espécie de melancolia e de frustração, de saudade do que não vivi – que é a mais doída saudade que pode haver.

É lendo as crônicas de Nelson Rodrigues que sou arremessado ao passado em busca da paixão que não mais vejo nas quatro linhas e nas arquibancadas, cada vez mais estéreis de povo.

Rezo, sem temer ser sacrílego – eis que o futebol é, antes de tudo, sagrado e sacrossanto por mais que nos vendam o contrário –, para que a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, com final a ser decidida no Maracanã, o coliseu carioca, ainda, e eternamente, o maior estádio do mundo, represente, mais que mais uma conquista para o futebol brasileiro, a retomada desse pacto inatual e religioso que une o futebol e a galhardia, a graça, o arrojo, a bravura e a audácia, o brio olímpico, a decisão resoluta, o denodo extremo, o mais completo desassombro e o destemor.

Haveremos nós, brasileiros e precipuamente cariocas, de saber injetar nas veias de cada um de nossos jogadores, de nosso escrete, a nossa brasilidade mais pura e mais legítima: “E a quem devemos tanto? Ao escrete, amigos, ao escrete, que, hoje, é o meu personagem da semana, múltiplo personagem. Personagem meu, do Brasil e do mundo. Graças aos 22 jogadores, que formaram a maior equipe de futebol da Terra, em todos os tempos, graças a esses jogadores, dizia eu, o Brasil descobre-se a si mesmo. Os simples, os bobos, os tapados hão de querer sufocar a vitória nos seus limites estritamente esportivos: ilusão!”. Haveremos de dar outra dimensão ao jogo, à partida, à guerra que travam as nações numa Copa do Mundo onde não há mortos mas há sangue, há suor, há lágrima e baba bovina, elástica e plástica como bem detectou meu personagem, não da semana, mas de todas as semanas! E seremos, de novo, a pátria de chuteiras.

Encerro com mais uma frase daquele que, como ninguém, entendeu o Brasil e os brasileiros, sua alma e seus dramas, seus fracassos e suas glórias, suas misérias e suas epopeias íntimas e particulares, seu dia-a-dia, o que me permite afirmar, sem medo do erro, que não é possível compreender o Brasil e sua gente sem o auxílio de Nelson Rodrigues:

“Por fim, a lição do meu personagem [o escrete]. Ele ensinou que o brasileiro é, sim, quer queiram quer não, o maior”.

Fará falta, muita falta, Nelson Rodrigues no Maracanã no dia da grande final. Mas ele estará lá, em cada rádio de pilha, em cada par de mãos jungidas, em cada grito de gol, em cada gota de suor e de lágrima. Redimindo sua própria alma, que pairará soberana e vigilante sobre o gigante de concreto que leva o nome de seu irmão, Mário Filho. Amém.


Eduardo Goldenberg nasceu no Rio de Janeiro, mais precisamente na Tijuca, em 1969. Formou-se em Direito, em 1992, na PUC/RJ. Advogado militante, vive, ainda, no bairro em que nasceu e onde pretende morrer. “Dissidente de si mesmo”, na opinião de Aldir Blanc, Eduardo mantém um blog no endereço www.butecodoedu.blogspot.com, e é autor do livro “Meu Lar é o Botequim”, editado pela Casa Jorge Editorial. Filho de pai vascaíno, torce pelo Flamengo, convertido, literalmente, pelas mãos do maior ídolo da história rubro-negra, Zico, em 1974, em pleno gramado do Maracanã, quando ainda era vascaíno à força.

Fui ao Maracanã, pela primeira vez, ainda no colo de meu pai, num dia em que não havia jogo, numa espécie de cerimônia particular que somente os pais de filhos homens compreendem (
clique aqui para ver a foto). Fui, então, apresentado ao Maracanã, palco de dramas e tragédias que ajudam a compor o caráter de um homem. A primeira lembrança viva que tenho de um jogo foi em 1978, na final entre Flamengo e Vasco (clique aqui para ver o jogo), quando meu pai tentou me converter de volta ao Vasco da Gama apostando na conquista do campeonato. O Flamengo ganhou de 1 a 0, gol de Rondinelli, de cabeça, no final do jogo, depois de escanteio cobrado pelo Zico, coroando a conquista rubro-negra. O gol mais impactante que vi, pelo que guardou de épico, foi o de Leandro, num Fla x Flu em dezembro de 1985 (clique aqui para ver o gol), aos 45 minutos do segundo tempo, num “balaço sensacional de fora da área”, nas palavras do narrador José Carlos Araújo. Eu estava no estádio e duas coisas me marcaram muito no pós-jogo. Ver Zico, assistindo ao jogo da cabine da TV Manchete, socando o vidro de tão empolgado que ficou com o gol. E a charge do Jornal dos Sports no dia seguinte, com o Cristo Redentor olhando para cima, o Maracanã ao fundo gritando “Mengo!”, e dizendo: “Pai, eu quero descer”.
 

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