O professor e escritor Luiz Antonio Simas nos presenteia com uma brilhante crônica mostrando que a simplicidade do futebol varzeano é o caminho para salvar o nosso caneco em 2014.
Luiz Antonio SimasA primeira Copa do Mundo que guardo na lembrança é a da Argentina, em 1978. A seleção brasileira jogou um futebol meio mixuruca e acabou abiscoitando um terceiro lugar, o que não agradou a torcida.
Lembro perfeitamente que, garoto abusado, eu adorava me intrometer nas discussões dos adultos sobre as razões do fracasso do escrete. Tinha, inclusive, uma tese irrefutável sobre a seleção: não ganhamos a Copa porque o técnico Cláudio Coutinho não convocou os jogadores do Vila de Cava Futebol Clube, time de várzea que marcou Nova Iguaçu (RJ) e outras cidades da Baixada Fluminense, em meados dos anos setenta.
Esclareço para quem não sabe: a popularidade do Vila de Cava foi tamanha que a equipe chegou mesmo a fazer uma excursão internacional – assim foi anunciada a viagem nas esquinas e botecos de Nova Iguaçu – ]pelo interior do Espírito Santo. Recito até hoje, como quem declama Camões ou Bandeira, a escalação dos sonhos do onze varzeano: Elisangela, Camunga, Nem Fudendo, Mão Branca e Tornado; Jorge Macaco, Capiroto e Corno Manso; Curupira, Abecedário e Aderaldo Miquimba.
Ainda hoje, trinta anos depois, continuo enxergando o futebol com os olhos do menino que fui e, vez por outra, me pego citando o Vila de Cava nas conversas entre a rapaziada boleira e nos textos que escrevo sobre o esporte. Quando levamos o segundo gol da Holanda, na última Copa do Mundo, a primeira coisa que pensei foi a seguinte: a zaga do Vila de Cava não tomaria esse gol de jeito nenhum. Sei de antemão, e já aviso aos que estiverem do meu lado nos estádios, que assistirei a Copa de 2014 com o mesmo olhar do garoto que descobriu nas várzeas de Nova Iguaçu a paixão absoluta pela bola.
Tenho, inclusive, três princípios que norteiam minha relação com o futebol, rigorosamente fundamentados no que a várzea me ensinou. Acho que eles podem ser úteis na preparação para 2014:
1- Jogador de futebol que se preza não pode entrar em campo com gel no cabelo, sobrancelha feita, sovaco depilado, creme de proteção facial, brinco de ouro, protetor labial e outros salamaleques típicos do gênero. O técnico do Vila de Cava, o popular Zezé Macumba, instruía os zagueiros, por exemplo, a parar de escovar os dentes uns três dias antes de um jogo importante. A sentença de Seu Zezé Macumba era definitiva: zagueiro tem que ter mau hálito pra intimidar o atacante. O negócio é chegar junto com um bafo de onça; beque tem que ter futum de carniça e ponto final. Tem que feder feito presunto desovado.
2- Jogador de futebol brasileiro tem que ter apelido, uma tradição que provavelmente é derivada do hábito nosso de se apelidar os praticantes da capoeira. Estamos agora, em tempos de futebol globalizado, sob a ditadura do nome e sobrenome. Já pensando em futura carreira no exterior, o garoto passa a ser chamado desde o infantil de Robson Marques, Wellington Souza, Krischna Santos, Wanderklei Rocha, Daniel Silva, Carlos Alberto de Oliveira Porto e o escambau.
No Vila de Cava todo mundo tinha apelido. Havia até o apelido do apelido, como é o caso do lateral direito Camunga. Não sei como o sujeito se chamava, mas o apelido era Camundongo – o bicho era branquelo e magricela feito um rato novo –. Para virar Camunga foi um pulo.
Sei a razão de algumas alcunhas. Mão Branca era uma referência a um temível chefe do esquadrão da morte da Baixada Fluminense. Em virtude da maneira um pouco ríspida de chegar aos adversários, o zagueiro do Vila passou a ser chamado dessa maneira.
Tornado, o lateral esquerdo, não era conhecido assim em referência ao fenômeno da natureza. O cabra era na verdade os cornos do cantor Toni Tornado, incluindo uma impressionante cabeleira Black Power de uns dois metros de altura. Capiroto, um cracaço era mais feio que a fome no sertão [apud Manoelzinho Motta, uma espécie de assistente técnico do time].
Abecedário, um centroavante técnico e com monumental domínio da redonda, era rigorosamente analfabeto, de não saber assinar o nome. Elisangela, o goleiro, na verdade se chamava Valter. Ou Valdir, não lembro direito. Ao deixar o cabelo crescer uma época, ficou a cara da atriz Elisangela. Nunca mais se livrou da sacanagem e acabou levando a coisa na esportiva.
3- Camisa é manto sagrado e como tal deve ser tratada. A camisa do Vila era da maior responsabilidade. Verde e preta com o escudo altaneiro na altura do coração e o número costurado. Hoje em dia o que menos se enxerga numa camisa de clube é o escudo – e tome propaganda na frente, atrás, nas mangas e onde mais houver espaço –. Tem camisa oficial de muito clube de tradição que se parece mais com macacão de piloto de corridas, com cinquenta e tantos patrocinadores, incluindo marca de leite em pó, posto de gasolina, puteiro de rico, supositório e agência funerária. Que pelo menos a camisa amarelinha não seja tão maculada pelos anseios do jabaculê.
A má notícia para os fãs da pelota é que o Vila de Cava já foi oló. Acabou. Infelizmente o futebol de várzea, um celeiro de craques da maior responsabilidade, está indo pra cucuia no Rio de Janeiro. Eu, que vi muito futebol comendo solto nos fins de semana em Nova Iguaçu e nos campeonatos de pelada do Aterro do Flamengo digo, afirmo e faço fé: tem muito Zé Ruela com pinta de mocinho fazendo sucesso e ganhando os tubos no exterior que, naquele timaço varzeano do velho Zezé Macumba, ia ter que cortar um dobrado pra esquentar o banco.
Não faço, para concluir, a mais vaga ideia sobre os jogadores que formarão o onze titular do escrete na Copa de 2014. Sei apenas o seguinte: se o escrete jogar metade do que o menino que eu fui (e volto a ser quando vejo uma redonda) tem certeza que o Vila de Cava F.C. jogou, o caneco já tem dono e o carnaval só vai terminar no patropi em março de 2015.
Um gol inesquecível:
Os meus gols inesquecíveis são todos os que não vi Garrincha fazer, já que eu não vi o Mané jogar. Como, porém, passei a infância inteira imaginando Garrincha em campo, acabei sonhando os gols mais inacreditáveis do gênio das pernas tortas e, hoje, acho que todos eles aconteceram de fato.
Veja alguns dos lances imortalizados por Garrincha, clicando aqui.
Luiz Antonio Simas é botafoguense, mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio. É considerado um dos profissionais mais importantes do Rio de Janeiro em sua área de atuação. Desenvolve pesquisas sobre a cultura popular carioca, mais especificamente nos campos do futebol e da música popular. Foi o responsável pela pesquisa da exposição Todas as Copas, evento realizado no Brasil e nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo de 1994. Seu trabalho foi considerado pela FIFA como um dos mais completos levantamentos já realizados sobre a história dos mundiais de futebol. O autor mantém um blog no endereço http://hisbrasileiras.blogspot.com.
Contato pelo email copa2014@turismo.gov.br.
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